Make your own free website on Tripod.com
     
 

A Lua

Como não é segredo para ninguém sou publicitária e taróloga. De vez em quando deixo a publicidade para estar bruxa em tempo integral e saindo de uma dessas bruxezas total, iniciando um trabalho no Jornal da Pampulha, mas ainda atendendo clientes de tarot grande parte do dia, fui atender uma senhora em sua casa. Uma mulher bonita, com seus 50 e poucos anos, situação financeira excelente, separada, filhos casados, queixava de solidão. Mas a danada não saia de casa nem para ir à padaria. Depois da consulta, disse a ela que tinha de sair da casca, passear, conhecer gente, que ninguém ia bater na porta dela perguntando: "é aqui que estão precisando de um namorado?". Naquele tempo a internet era ainda um bicho de sete cabeças, pelo menos para a maioria das pessoas. Eu nem passava perto. O Jornal Estado de Minas disponibilizava para os anunciantes dos pequenos anúncios uma caixa postal. Dei a ela então a idéia de colocar um anúncio no setor de mensagens. Não seria arriscado, pois ela daria uma filtrada nas mensagens de voz na caixa descartando aqueles que pareciam de um nível muito ruim, e só ligaria para aqueles selecionados. Ela não se exporia. Não é que ela concordou? Mas tinha uma condição: que eu também colocasse um. Foi esse o início de tudo: um anúncio no jornal.

"Mulher clara, 35 anos, procura homem dominador para relacionamento."

Simples, direto e........louco! Desafiei o destino. Se aquele homem existisse.......Quem sabe? Mais enlouquecedor foi a quantidade de respostas ao meu an\'fancio: 235. Não. Não digitei números a mais. Vou escrever: duzentas e trinta e cinco respostas. Todas com nome e telefone. Isso mexe com a cabeça de qualquer um!!!!! Pacientemente, só por curiosidade, escutei uma a uma, anotei os dados, e dei uma "nota" para cada um. Aqueles que tirassem as dez maiores notas eu iria ligar. Não que eu estivesse interessada. Já estava acostumada a estar com meu Homem todas as noites quando dormia. Contava a ele o que estava fazendo e ele ria à larga! No segundo dia, de madrugada, checando a caixa, uma mensagem me fez sentir um arrepio quando a ouvi. Liguei imediatamente. Nome: Carlos. Era um celular. Caiu na caixa postal. Contrariando todas as minhas atitudes de cautela deixei meu número.

O Sol faz contato

Saí cedo de casa como de hábito. Passei rapidamente no jornal, e fui à campo. Meu cliente das onze horas era perto do mercado central, por isso resolvi que enforcaria o resto do dia para tomar uma cerveja e me deleitar com uma feijoada fantástica só feita lá. Duas e pouco da tarde, Sexta feira. Toca o celular. Era ele. Conversamos sobre tudo durante pouco mais de uma hora. Ele me contou que era piloto, que estava indo para Recife, mas que na segunda estaria de volta. O mais engraçado era que a conversa fluía como se já nos conhecessemos há muito tempo. Sabe aquele tipo de papo que você tem com um amigo que não vê à séculos? Desligou dizendo que ligaria segunda pela manhã para combinarmos o encontro à noite. Não sei nem como explicar o que estava sentindo. Parecia que eu estava vivendo um sonho.....

Alguns minutos depois ele ligou novamente:

_ Esquecemos de uma coisa......

_ O que? _ perguntei

_ As características físicas.....

Foi só aí que me dei conta que não tínhamos dito um para o outro como éramos.

_ Ah.....Aquela coisa de um metro e meio de altura, vesga, cabelo verde, manca da perna esquerda, banguela, nariz comprido com uma verruga na ponta?

_ Isso.

_ Então já falei (risos)

Foi mais meia hora de papo. O mais impressionante é que as características físicas dele batiam com as do Homem dos sonhos.

Saí com um amigo no dia seguinte como sempre fazia aos sábados. À tarde teria o desfile da Banda Mole, que não perco nem se chover canivete. Achava que só teria notícias dele na Segunda quando o telefone tocou e era um número muito estranho.

_ Onde você está?

_ Num barzinho com amigos. Que número estranho, esse que apareceu aqui no identificador? Você está em Recife?

_ Não. Estou em Maracaibo.

_ Onde, diabos, fica isso?

_ Venezuela. Não se esqueceu que Segunda estarei aí, não é?

_ Não. Não me esqueci. Estou super ansiosa para que chegue logo.

_ Te cuida, tá! Beijos.

Realmente eu não estava acreditando no que estava acontecendo comigo. Será, meu Deus, que eu estou ficando louca? Tô tendo alucinação, sonhando acordada, ou é de verdade?

Fui para o desfile da Banda Mole, mas nem me diverti direito. A cabeça tava em Maracaibo. Resolvi ligar. Caiu na caixa. Disse que enquanto ele confraternizava com piratas eu tava na maior farra na Banda Mole, mas que gostaria que ele estivesse lá comigo.

Domingo: silêncio.

Segunda, oito da manhã. Ele ao telefone. Conversamos por toda a manhã. Impressionante. Muitas coisas que ele me dizia o Carlos dos sonhos já tinha dito. Frases inteiras foram repetidas.

_ Meu vôo sai às 15 horas. Te pego às 8. Criança, preste bem atenção no que vou lhe dizer. Pense bem. Não posso te dar nem o céu, nem o paraíso. Eu só tenho o inferno para te oferecer...

...

_ Então? O que me diz?

_ Posso responder a isso na sua caixa enquanto você estiver voando?

_ Tudo bem. O Fabiano, meu co-piloto tá te mandando um abraço! Bom, vou almoçar e me preparar. Te encontro à noite.

15 e trinta. Ligo para deixar minha resposta. Estranhamente ele atende o telefone, aflito. O Fabiano tinha sumido. O celular dele estava desligado.

_ Não posso falar com você agora. O Fabiano arrumou uma namorada por aí e sumiu. Quando chegar aí eu te ligo.

Meia hora depois ligo novamente. Cai na caixa. Deixo então minha resposta:

_ O céu, com aqueles anjinhos cantando é um porre! O paraíso, monótono, entediante. Pode me chamar de Lilith!

(continua)

 
 

Voltar